sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Chapada do Araripe: Homologada como Paisagem Cultural do Ceará pela governadora Izolda Cela

 


Governadora Izolda Cela assina o decreto que homologa a Chapada do Araripe como Paisagem Cultural do Ceará. A partir de 2023, a chapada fará parte da lista indicativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para concorrer à chancela de Patrimônio da Humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A chancela visa estabelecer a gestão compartilhada do território da Chapada do Araripe entre poder público, sociedade civil e iniciativa privada, com ações de proteção para os 29 municípios que integram a área.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

A História de Cococi - A Cidade Fantasma do Sertão dos Inhamhuns Cordel de Rosário Lustosa e outras

Histórias de Cococi-Ce A Cidade Fantasma do Sertão dos Inhamhuns

A Cidade Fantasma do Sertão dos Inhamhuns

CORDEL - A História de COCOCI Autora: Rosário Lustosa


Juazeiro do Norte, Outubro de 2015


Entre lendas e fatos: as histórias não contadas da cidade-fantasma do sertão cearense

O município de Cococi foi extinto. Restou povoado deserto, duas famílias residentes no distrito, casarões abandonados e ruínas a ecoar lendas no sertão. As vivências de lá tornam viva a memória do lugar

A cidade foi amaldiçoada por um padre. O infortúnio nasceu da disputa entre o religioso e uma importante família do lugar. Por isso, quando um dos primogênitos do clã faleceu, transformou-se em serpente. No túmulo, para que não escapasse e tirasse o sossego de todos, sempre precisavam amarrar correntes e passar cimento em cima, vigas de ferro. Havia perigo de que o caixão rompesse.

Essa é a versão do imaginário popular sobre o abandono de Cococi. O local pode ser denominado de várias formas – povoação deserta, cidade-fantasma, território extinto. Mas há mais.

São muitas histórias por trás do cenário em ruínas, resultado de processos que culminaram no apagamento do município cearense, localizado no Sertão dos Inhamuns, em 1979. Desde essa época, ele se tornou um distrito de Parambu, a cerca de 37 quilômetros do local, e luta para manter viva a memória....

Um dos comentários à boca pequena, por exemplo, é de que os espaços de festa na antiga cidade se chamavam "O Galo" e "A Galinha". Em um, apenas homens frequentavam; no outro, somente mulheres. 

A curiosidade também se materializa em detalhes políticos. A última eleição do Cococi, em 1966, teve um diferencial: apenas 378 votos, um branco e sete nulos, para uma população com aproximadamente dois mil eleitores. Essa conta que não fecha é explicada com rigor técnico no trabalho, bem como a história de seu Luís Quililiu, falecido durante a produção do projeto, aos 85 anos. Figura importante, viveu várias fases do distrito. Foi vaqueiro, agricultor e confeccionou malas de couro para a elite da região.  "Deixou um legado muito grande porque sempre morou nessa região. Na verdade, ele nasceu e se criou muito próximo do Cococi. 

O lugar que ele morou mais longe da sede do Cococi foi em Juá, a uns 18 quilômetros. Tudo dele era muito ligado à aquela comunidade, então vivenciou muita coisa, momentos bons e ruins". Atualmente, a sede do distrito vive em estado de abandono. Conforme a jornalista, os problemas estruturais não são apenas fruto dos efeitos do tempo, mas principalmente do descaso público, que facilita o esquecimento do lugar. As duas famílias moradoras na vila precisam buscar água em outras localidades para saciar a sede, fazer comida e tomar banho. O motivo do deslocamento é a péssima qualidade da água do poço local.

“A igreja da localidade ainda está intacta graças à dedicação das comunidades pertencentes à área territorial do Cococi. Elas também são responsáveis por realizarem anualmente a tradicional novena dedicada à Nossa Senhora Imaculada da Conceição, festa religiosa que há mais de 250 anos é mantida pelo povo”, enumera.
“Na década de 1970, Cococi estava prestes a completar 12 anos como cidade. No entanto, a marca não foi possível porque o governo federal descobriu casos de corrupção. Toda a área correspondente ao local é de propriedade privada da família Feitosa. Quando esse assunto veio à tona para o poder público, foi emitido, por meio do Diário Oficial da União, a notícia de que o município deveria ser rebaixado para distrito”.Jayanni Rodrigues jornalista 
Como a devoção popular pode ser uma ferramenta para preservar a memória de um local?  festa de Nossa Senhora Imaculada Conceição, padroeira de Cococi, responsável por renovar a fé dos moradores e manter pulsante a história do vilarejO 

Apesar das próprias particularidades, o povoado se assemelha a várias localidades rurais do interior cearense – indo desde a vegetação típica do semiárido brasileiro, o vai e vem de pessoas de comunidades vizinhas, o telefone rural até a popularização da tecnologia, a exemplo de wi-fi. Afinal, viver na vila do Cococi não significa estado de retrocesso.

fontes : cordelista Rosário Lustosa  diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/entre-lendas-e-fatos-as-historias-nao-contadas-da-cidade-fantasma-do-sertao-cearenseQuem vive ali: conheça Cococi, a 'cidade-fantasma' do Ceará | Quem vive ali | G1 (globo.com)

 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Casa dos Saberes em Barbalha lança a X Edição Curta Genero

 






Você que quer aprender, e quer agregar conhecimentos, se liga nessas oportunidades.

📌 A X edição Curta Gênero, vem trazendo 30 atividades e que emitirá um certificado de 80h/a.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Das histórias do Cariri

Crato, ano de 1935 - Pedro Maia(1892-1981) com o seu Ford 1934, placa "CE 20 8-A", estacionado numa das laterais da Praça Siqueira Campos, na Rua Dr. João Pessoa, esquina em que funcionou o Banco do Cariry, fundado em 1924.
Chofer de praça e fotógrafo(além de outras profissões), foi Pedro Maia quem acompanhou o médico e jornalista Otacílio Macedo na célebre entrevista com o cangaceiro Lampião, realizada em Juazeiro do Norte no dia 06 de março de 1926, ocasião em que o bandido e seus familiares foram fotografados pelo profissional cratense.


Foto: Júlio Saraiva / Acervo: Linard
facebook - O Crato de  Outrora 

Perdão de Assis: a indulgência plenária de São Francisco

Depois do tríduo que precede as 24 horas de indulgência plenária, a partir desta segunda (01/08) inicia o Perdão de Assis, o perdão que São Francisco pediu ao Papa Honório III que na Porciúncula pode ser obtido durante todo o ano, e desde 1966 foi estendido a todas as igrejas paroquiais e franciscanas

Depois de três dias de preparação para o Perdão de Assis com as meditações do Padre Mauro Galesini foi concluída a introdução da celebração da misericórdia proclamada por São Francisco.  Nesta segunda-feira, 1° de agosto, o Padre Massimo Fusarelli, Ministro geral da Ordem dos Frades Menores, preside a solene celebração eucarística que conclui a introdução ao meio-dia com a procissão da "Abertura do Perdão". Desde esse momento até a meia-noite de 2 de agosto, a Indulgência Plenária concedida na Porciúncula é estendida durante todo o dia a todas as igrejas paroquiais e franciscanas dos cinco continentes

A história do perdão de Assis

O Perdão de Assis teve origem no século XIII. A história conta que uma noite no ano 1216 São Francisco estava imerso em oração na Porciúncula, (a pequena igreja dos franciscanos abrigada pela Basílica de Santa Maria dos Anjos em Assis) quando de repente uma luz brilhante inundou a igrejinha e acima do altar o humilde frade viu Cristo e sua Mãe cercados por uma multidão de anjos. 


Perguntaram-lhe o que ele queria para a salvação das almas e Francisco respondeu: "Rogo-lhes que todos os arrependidos e confessados que venham visitar esta igreja, obtenham o perdão amplo e generoso, com completa remissão de todos os pecados”. "O que você pede, frade Francisco, é grande", diz-lhe o Senhor, "mas de coisas maiores você é digno e maiores você terá. Aceito, portanto, sua oração, mas na condição de que você peça a meu vigário na terra esta indulgência". 


Assim o pobrezinho de Assis se apresentou ao Papa Honório III que o ouviu atentamente, deu sua aprovação e lhe perguntou: "Por quantos anos você quer esta indulgência?". E Francisco: "Santo Padre, eu não peço por anos, mas por almas. Eu quero, Santo Padre, se Vossa Santidade permitir, que todos aqueles que, confessados e contritos, e, como é seu dever, absolvidos pelo sacerdote, entrarem naquela igreja, sejam libertados do castigo e da culpa, no céu e na terra, desde o dia de seu batismo até o dia e a hora de sua entrada na referida igreja". 


O Pontífice respondeu: "Eis que a partir de agora concedemos que quem quer que venha e entre na referida igreja, devidamente confessado e arrependido, será absolvido da punição e culpa; e desejamos que isto seja perpetuado todos os anos, mas apenas por um dia, desde as primeiras vésperas, incluindo a noite, até as vésperas do dia seguinte". Foi assim que em 2 de agosto de 1216, juntamente com os bispos da Úmbria, Francisco anunciou ao povo reunido na Porciúncula: "Meus irmãos, quero enviar-vos a todos ao Paraíso!”


fonte: Vatican News

Hoje é Dia: cordel, maracatu e capoeirista têm datas nesta semana


O Hoje é Dia desta semana exalta manifestações culturais populares, sobretudo, do Nordeste brasileiro. Agosto começa trazendo datas dedicadas a um gênero literário e a uma manifestação popular: o cordel e o maracatu.

Vinda de Portugal para o Brasil no século XVII, a literatura de cordel adquiriu traços da cultura nordestina e se transformou em expressão da região. Impressos de forma artesanal em folhetos, os cordéis eram popularmente vendidos em feiras dispostos em cordões – daí veio o nome desse gênero literário.

A poesia dos cordelistas é feita para ser declamada. Para ser considerada literatura de cordel, as obras devem obedecer certas regras de métrica, rimas e variações linguísticas. Os temas, no entanto, percorrem os mais variados assuntos – desde aventuras de heróis da cultura nordestina a piadas.

Ainda no dia 1º, é dia de um ritmo folclórico nacional, que mistura dança e música, e é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. É o maracatu, celebração popular de origem africana surgida em Pernambuco no século XVII.

Há dois tipos diferentes de maracatu: o maracatu rural, ou de baque solto, e o maracatu nação, ou de baque virado. O primeiro acontece durante os períodos de carnaval e Páscoa, sobretudo na região da Zona da Mata nordestina. Esse ritmo mistura outras manifestações culturais, como cambindas, bumba-meu-boi, cavalo-marinho e coroação dos reis negros.

Já o maracatu nação está presente principalmente na região metropolitana de Recife. Essa expressão artística apresenta um conjunto musical percussivo e um cortejo real, que sai às ruas para desfiles e apresentações durante o carnaval.

Na quarta-feira (3), outra manifestação de origem africana é lembrada: o Dia do Capoeirista. Luta disfarçada de dança e criada por escravos africanos (sobretudo de Angola), a criação da capoeira data do século XVI. Atualmente, três tipos de capoeira são praticados no Brasil: a capoeira de Angola, a contemporânea e a regional.

Primeira mulher na Academia Brasileira de Letras

Há 45 anos, uma mulher se tornava uma imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) pela primeira vez. A escritora Raquel de Queiroz foi nomeada em 4 de agosto de 1977 para a cadeira nº 56, após o falecimento de Candido Motta Filho.

Cearense nascida em Fortaleza, Raquel de Queiroz ganhou reconhecimento nacional aos 19 anos com a publicação do romance O quinze, que narra a luta do povo nordestino durante a grande seca de 1915. O Recordar é TV lembra a trajetória da escritora.

Por: Agência Brasil

Da história de Juazeiro : O ADMIRÁVEL DR. MOZART - texto de Francisco Neri Filho

 DA HISTÓRIA DE JUAZEIRO : O ADMIRÁVEL DR. MOZART

Nasci e cresci ouvindo falar de Dr. Mozart Cardoso de Alencar como um homem verdadeiramente admirável. Ele era um tipo especial de pessoa que a todos impressionava pela capacidade de empregar engenho e arte em diversas atividades.

Na vida profissional, foi o médico que seus colegas, de um modo geral, gostariam de ser. Parecia ter um sexto sentido que o levava direto à etiologia dos males mais complexos, permitindo-lhe alcançar os melhores resultados no tratamento aplicado. Em conseqüência de um trabalho assaz competente, realizado com acendrada paixão, conquistou formidável fama. Numa época em que a medicina estava longe de contar com o auxílio da análise clínica aprimorada; dos aparelhos de ultra-som, tomografias, endoscopias e outros recursos tecnológicos, na identificação das patologias, ele utilizava os meios mais simples para chegar aos infalíveis diagnósticos que o tornaram célebre.

Tinha um ouvido acutíssimo, que detectava com facilidade as afeções do peito – mediante a pronúncia repetida de "trinta e três" pelo paciente –, bem como as mais discretas arritmias do coração. Usava tubos de ensaio para o exame da urina, colhida no próprio consultório e, ali mesmo, na presença do doente, acendia um pavio com que esquentava o fundo do vaso cilíndrico e já lhe dizia se estava ou não perdendo albumina. Além disso, sentado à escrivaninha, frente a frente com o cliente, abria um vade-mécum bastante volumoso e lia em voz alta o conteúdo do livro na parte em que lhe parecia enquadrar-se o caso sob exame, comentando a seguir os motivos de seu entendimento.

Esses fatos, que testemunhei algumas vezes, dizem bem da extrema dedicação do médico da família juazeirense – como o intitulou Dr. Geraldo Barbosa – à nobre profissão que abraçara. Por desempenhar o ofício de forma responsável, com sabedoria, entusiasmo e intuição, na ânsia contínua de tratar dos doentes e debelar com urgência os males que ameaçavam a coletividade, às vezes Dr. Mozart chocava pessoas do povo, ao alertar quanto ao perigo de estarem acometidas de moléstias contagiosas graves, recomendando sempre providência imediata.

Foi o que aconteceu a certo senhor que se encontrava à porta de casa quando ele, passando casualmente pela calçada, ao voltar a vista para cumprimentar o tal homem, parou de súbito e exclamou: "Ih! meu velho, você está com lepra!" Assustado e sentindo-se agredido, o dito senhor e também uma filha deste que assomava à porta, por demais irritados com o que ouviram, contestaram o médico de forma veemente e até desrespeitosa. Dizem que ela insinuou que o doutor não sabia de nada e era quem podia estar com a doença. Aí ouviu, de pronto, a mesma diagnose fatídica: "Você também está leprosa e precisa cuidar-se antes que seja tarde!"... Evidentemente, tudo se confirmou em seguida.

Episódios como esse eram repetidamente narrados no dia-a-dia de nossa cidade; daí porque ninguém jamais esqueceu o fiel discípulo de Hipócrates que Juazeiro teve a felicidade e o privilégio de abrigar durante 65 anos, como um dos mais úteis, admirados e respeitados munícipes de toda a sua história. Aliás, foi também em seu consultório onde li pela primeira vez o famoso juramento do Papa da Medicina, na Antigüidade, que ele tinha o prazer de estampar na parede, juramento esse que constitui o supra-sumo da ética profissional, na área de sua atuação. Traduzido da literatura clássica, decerto o embevecia pela substância e pela forma, haja vista ainda os seus pendores literários.

Além de pontificar brilhantemente no mais alto escalão da área de saúde, teve, como o ser social por excelência que era, uma presença muito marcante na vida comunitária em geral. Dotado de magníficos dons artísticos lítero-musicais, produziu poemas líricos admiráveis e atraía todas as atenções para si quando dava vazão ao gênio criativo. Dependendo da ocasião, ora fazia versos de improviso  picantes, satíricos e para todos os gostos , ora cantava afinado, com voz de tenor ou discursava com sua oratória vibrante e facunda. Era sempre interessante e agradável ouvir e ver Dr. Mozart em ação nas solenidades cívicas e sociais.

Quando conversava e tratava de questões que exigissem conhecimentos técnico-científicos do campo médico, fazia-o demonstrando total segurança, com a mesma desenvoltura com que falava de outros temas comuns, em termos próprios e atualizados. Na prosa e na lorota, saísse de perto, porque não tinha quem agüentasse. Ele, sempre muito espirituoso, dizia as coisas mais gozadas e já deflagrava uma gargalhada gostosa e contagiante, levando todos a rir sem poder parar. E, quando havia entre os circunstantes uma pessoa também brincalhona, capaz de animar a conversa com inteligência, aí a coisa ia longe...

No palco da sociedade juazeirense, a partir de sua chegada à Terra do Padre Cícero até à cassação de seu mandato de prefeito, em 1975, quando experimentou o gosto amargo da traição, figurou entre os protagonistas de todos os grandes acontecimentos políticos e sociais que abalaram a Cidade. Eram ele e seu amigo e correligionário, o antigo Promotor de Justiça Dr. Edward Teixeira Férrer, duas figuras fantásticas; tão díspares em certo sentido, mas tão semelhantes na arte de despertar as emoções do povo!... Em memoráveis campanhas políticas, vitoriosas ou não, sempre deixavam a marca de uma atuação corajosa e firme, na defesa e no ataque, com arrebatamentos e paixões na base, de lado a lado. Mozart não temia o mais ferrenho adversário: Feitosa (Dr. Antônio Conserva Feitosa), nem este temia Mozart. E era isso que tornava as disputas mais tensas e preocupantes.

Ainda ouço o toque-toque dos cacetes dos "carrapatos" de Feitosa, comemorando a vitória que tiveram sobre Dr. Mozart, apoiando José Monteiro de Macedo nas eleições municipais de 1950. Fechamos todas as portas e janelas de casa e nos mantivemos calados e com medo, lá dentro, no meio da sala de jantar, porque houve uma passeata à noite, percorrendo nossa rua (Pe. Cícero, nº 196), só comparável aos arrastões dos malfeitores de hoje, nas praias do Rio. A par disso ainda havia o reboar das bombas estouradas defronte das residências dos derrotados, que elevava a muitos graus o clima de terror. Ai do udenista que ousasse expor-se à sanha dos mazorqueiros... Tal a impressão de assombro gravada em nosso espírito.

E eu fiquei perguntando-me, nos meus quase seis anos de idade, como aquilo poderia ter acontecido, se cantávamos tão eufóricos: "Os contrários estão contentes, pensando que vão ganhar, mas aqui na prefeitura ficará Dr. Mozart". Era uma paródia à música de Luiz Gonzaga, que dizia assim: "Ai Quixabeira, Quixabeira do meu Assaré"... Mais tarde, em 54, dar-lhes-íamos o troco com Zé Geraldo.

Foi a época da campanha política mais animada e mais sensacional a que assisti, quando fizemos do chapéu de palha o símbolo de nossa resistência. Era bonito ver a multidão na praça, diante da Farmácia dos Pobres ou nos comícios, com aquele chapeuzinho na cabeça, em que se lia "gogó", escrito com tinta a óleo preta, na parte frontal, acima da aba e/ou na própria aba. Certo dia, no decorrer dessa mesma campanha, Milton Sobreira e Humberto Alencar apareceram lá em casa com uma folha de cartolina e um livro com a gravura de uma cutia. Colocaram a cartolina sobre a mesa e desenharam nela um animal bem grande, igualzinho ao do livro. Depois o recortaram e fizeram dele um estandarte para exibir nos comício da UDN e do PTB, então coligados.

É que o candidato adversário, Dr. Feitosa, que pertencia ao PSD, era apelidado de Cutia... Muita gente ainda deve lembrar-se daquele cartaz tremulando nas concentrações populares dos eleitores de Zé Geraldo e Zé Monteiro "para o bem de Juazeiro". Dessa vez, Zé Monteiro concorria à Assembléia Legislativa e estava de nosso lado. Doutra feita, levaram ao comício uma melancia enorme pintada de branco, colocada sobre palhas, simulando um ninho, para dizerem que era o ovo posto pelo concorrente. Fazia-se, assim, uma associação de idéias com a quadra estapafúrdia, segundo a qual: "Armando fez o ninho, Feitosa pôs um ovo, Almino tá chocando pra tirar um pinto novo". Armando (Falcão) era o candidato adversário ao Governo do Estado e Almino (Loiola) a deputado estadual, também apoiado por Dr. Feitosa.

Nem precisa dizer que Mozart e Edward eram figuras de proa da campanha vitoriosa daquele ano tão remoto e tão presente. Mais adiante, já nos anos setenta, Dr. Mozart afinal se elegeu prefeito, com o apoio dos Bezerra; mas, com menos de dois anos no exercício do cargo, teceu-se uma intriga a mais desarrazoada, que culminou com a cassação de seu mandato. A propósito, isso não constituiu surpresa para mim, posto que, atento a um discurso do candidato Mozart, nos idos de 73, em comício realizado na praça Dirceu Figueriedo, lembra perfeitamente ter ouvido dele a afirmação incisiva de que, uma vez à frente da Prefeitura, não precisava da orientação de quem quer que fosse para administrar Juazeiro, posto que, como todo mundo sabia, era um homem bastante inteligente e capaz...

O motivo dessa assertiva vinha do fato de se dizer que o ex-prefeito Humberto Bezerra – que havia feito uma boa administração –, iria orientar o candidato à sucessão, pela ARENA, a realizar também um bom trabalho. Era só um argumento dos correligionários para rebater crítica do outro lado, segundo a qual ele não tinha experiência administrativa. Ora, isso lhe feria, evidentemente, a vaidade e os brios de cidadão cônscio dos seus direitos, deveres e responsabilidades... Ao testemunhar o episódio, comentei na hora – premonitoriamente – com minha mulher, Iane, que a eleição de Dr. Mozart não iria dar certo...
No atendimento à clientela, Dr. Mozart, sempre bem-humorado, não perdia a oportunidade de quebrar o pessimismo reinante no ambiente e fazer com que se elevasse o ânimo da pessoa enferma e de seus familiares. Era só lançar mão dos recursos naturais da veia poética e da capacidade criativa e dizer um repente adequado a cada situação, e logo mudava o quadro soturno. Certa vez, em visita domiciliar a meu sogro: Sr. Januário Alves Feitosa (Av. Dr. Floro, n. 390), que se encontrava bastante doente, ao passar pela cozinha viu que se esganava uma "penosa" e saiu com esta: "Oh! que cheiro na cozinha do Ginu/Todo dia mata galinha, só não vejo matar peru."

Assim era em todas as ocasiões, mormente quando se comemorava algum acontecimento que mexia com a massa popular, como num dia de 1960 em que houve uma passeata de desagravo a Neyr Sobreira, miss Juazeiro, que acabava de voltar de Fortaleza, onde concorrera ao título de miss Ceará e fora derrotada, logo pela representante do município vizinho e rival. O despeito era maior porque a loura conterrânea, de longos e lisos cabelos, perdera para uma morena de cabeleira um pouco encaracolada.

Assistindo ao desfile da mais bela juazeirense de então, na confluência das ruas Pe. Cícero e Cruzeiro, quando ela exibia a beleza exuberante em carro aberto, o poeta olhou para mim e comentou em voz alta: "Miss Crato ganhou nesse jogo/A custa de cabelo estirado a ferro e fogo!" Os versos lhe saiam assim, a todo momento, por brincadeira. E muita coisa boa deve ter-se perdido.

Felizmente, com a publicação de "Poemas Escolhidos" em 89 e "Doce de Pimenta" em 94, a maior parte da produção literária de Dr. Mozart, que se encontrava dispersa, foi enfeixada nesses livros para nosso deleite e regalo, graças ao escritor conterrâneo, Raimundo Araújo, que assumiu a tarefa de organizar os trabalhos pertinentes a fim de que fosse trazido a lume o conteúdo rico e variado de uma obra originalíssima, saída de um espírito libérrimo, senhor de si porque consciente do fulgor da própria inteligência , ora lírico, apaixonado; ora gozador, irreverente e mordaz.

Quando, em 30 de dezembro de l988, foi agraciado com a mais alta comenda do município de Juazeiro: "Medalha de Honra ao Mérito Padre Cícero", Dr. Mozart pronunciou longo discurso, em que contou toda a história de sua vida e aí, ao falar do que essa terra lhe havia proporcionado em termos de integração social plena, sobremodo satisfatória, em meio a boas e caras amizades, citou nominalmente 45 (quarenta e cinco) pessoas com quem nela convivera em saudável harmonia. Fiquei orgulhoso ao ver que começava assim a passagem aqui referida: "Ao longo de minha vivência nesta cidade, onde cheguei no dia 10 de outubro de 1931, constituí um sem-número de amigos. Dentre eles, os sempre lembrados: José Geraldo da Cruz, Cel. Francisco Néri da Costa Morato..." (meu pai), seguindo-se os demais nomes; primeiro os de saudosa memória, depois dos que ainda viviam.

Foi por isso que, em dias de 1956, quando corria na rua, defronte de casa, brincando com a meninada numa noite calma e fui chamado de repente por minha mãe, muito aflita, que me ordenou ir depressa atrás de Dr. Mozart, porque meu pai havia urinado sangue, ao sair em disparada rumo à sua residência – indo encontrá-lo noutra casa próxima, jogando baralho –, mal lhe dei o recado, em poucos minutos, estava ele à cabeceira do velho amigo, examinando-o e prescrevendo medicação de urgência, para voltar no dia seguinte, logo de manhã, fazer um exame mais acurado e dar o diagnóstico.

Nos bons tempos de sua mocidade – primeiros anos da década de 30 –, ainda a propósito desse relacionamento amistoso, incluiu meu pai no primeiro testamento de Judas Iscariotes, de que se fez escrivão: "Ao senhor coronel Nery/Vinte contos vou deixar/P'ra no Rio de Janeiro/Ir dos olhos se operar/Mas não passe no Recife,/Se esconda do Salazar/Que operou o Padre Cícero/Somente para ganhar.../O Padre gastou demais/E morreu sem enxergar". Já a respeito de meu irmão mais velho disse assim: "Zé Néri – o incompreendido – /Vou lhe chamar a atenção:/Depois que eu for enforcado/Não queira mais discussão;/Discuti com os fariseus,/Resultou-me esta prisão./Portanto não mais discuta/Nem teime sem ter razão/Que o prêmio de quem discute/É forca, meu caro irmão."

Aí por volta de 1964 ou 65, adoeci e fui reiteradas vezes ao seu consultório, quando recebi um tratamento muito atencioso e cordial. Ao recomendar que viesse a Fortaleza, adiantou-me haver aqui um médico muito bom, seu amigo particular com quem trabalhara no Crato, ainda na década de trinta, durante o surto da peste bubônica, e até escreveu a esse seu colega, que era o Dr. Mário de Assis, solicitando examinar o meu caso com maior cuidado, por ser filho de pessoa de sua estima.

Por tudo isso, quando me pediu que falasse a mamãe de seu interesse na aquisição de um terreno de propriedade dela, que se iniciava naquele beco que era a continuação da Rua Padre Cícero (logo atrás da Rua do Brejo, em frente à Igreja de N.Sra. das Dores e ia até o Rio Salgadinho, vizinho aos herdeiros do Sr. José Xandu), não tive dúvida em usar toda a minha influência para que o negócio se realizasse, o que não foi nada fácil devido a uma recomendação de meu pai para que ela nunca se desfizesse de bens de raiz. No entanto, como o doutor havia manifestado o desejo de montar ali uma vacaria, coisa muito de seu agrado, houve um consenso em família para atender ao médico amigo, mais como um preito de gratidão, e o negócio se concretizou. Foi bom ver que ele pôde realizar aquele desejo, embora, tempos depois, tenha sido o citado imóvel objeto de desapropriação pelo poder público municipal.

Agora o Prof. Expedito Cornélio me transmite um recado de seu filho Daltro, que, pretendendo editar um livro sobre a vida e a obra do legendário pai, Dr. Mozart, solicita minhas impressões acerca do médico e poeta barbalhense que, literalmente, enterrou o coração em Juazeiro do Padre Cícero.

Devo dizer que participo das homenagens com enorme satisfação, porque sempre admirei imensamente esse homem extraordinário e tive por ele o maior apreço. Se não bastasse isso, três de seus filhos: Teive, Dante e Guálter, que têm idade próxima à minha, são meus amigos e com eles convivi na infância e na adolescência – a maior parte do tempo, na Praça Padre Cícero e no bosque das peladas futebolísticas de quase todo dia –, em clima de mútua cordialidade. Com o primeiro e com o último foi maior aproximação dado que moramos juntos no Fortaleza Hotel, em nosso tempo de estudantes. Deixo, pois, aqui, um forte abraço a todos que têm o justo orgulho e a honra de pertencer a essa gloriosa descendência.

Fortaleza (CE), 25 de abril de 2001
Francisco Néri Filho
N. A.. Como o livro a que se destinou este trabalho não foi editado no centenário de nascimento do homenageado, em 2003, conf. estava previsto, sentimo-nos liberado a levá-lo a público, o que fazemos agora, em sinal de gratidão ao admirável Dr. Mozart Cardoso de Alencar.